AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS[1]

Marta Anadón, Ph.D, UQAC, Québec, Canadá

Há alguns anos temas e técnicas de pesquisa se multiplicam e se diversificam em diferentes setores das ciências humanas e sociais. Este é o caso da noção de representação social e da  elaboração de seu conceito. Situada na interface de campos científicos diferentes, esta noção e os fenômenos aos quais ela se refere têm experimentado reduções à medida que  eles foram abordados por teorias e modelos disciplinares como é o caso, por exemplo, da cognição pela psicologia ou da ideologia  pela sociologia etc. O estudo das RS permite pesquisar  o que há de comum nos diferentes domínios que se mostram aproximados, justapostos e algumas vezes separados. Com efeito a noção de RS torna-se um conceito-chave para a psicologia social e para as disciplinas que lhe são conexas.

Esta comunicação abordará a problemática das RS em três momentos: no primeiro eu me debruçarei sobre a sua noção e sua conceptualização, no segundo centrarei minha reflexão nas orientações do domínio do estudo das RS referindo-me às atividades de pesquisa que ilustram cada orientação e, finalmente, no terceiro momento, serão abordadas as pistas metodológicas que a análise das RS abre no campo das ciências humanas e sociais.

DA NOÇÃO AO CONCEITO DE RS

A noção das RS se inspira na sociologia das formas simbólicas e das produções mentais coletivas, em que Mead, Mauss (descreve o papel central que exercem  na consciência individual as representações coletivas sob a forma de idéias, de conceitos, de motivos para explicar as práticas) e Durkheim são  os pioneiros. Entretanto, ela se desenvolve no campo da psicologia social européia como é colocada  em iniciativa primeira pelo trabalho fundador de Moscovici (1961)  em A psicanálise, sua imagem e seu público. Desde então, o desenvolvimento do conceito se efetuou dentro de uma perspectiva construtivista e interacionista de natureza social. Aqui o social tem um estatuto de fenômeno estruturante da construção da realidade, a gênese das RS.

O modelo interacionista proposto  por Moscovici (cf. figura 1) institui uma relação ternária entre o sujeito (ego), o sujeito social (alter) e o objeto.

Objeto

(físico, social, imaginário ou real)

Ego                                             Alter

Figura 1: a relação ternária segundo Moscovici (1984, p. 9)

A relação de sujeito a sujeito em sua relação com o objeto corresponde a uma interação, isto  é a uma ligação recíproca que une indissoluvelmente o homem e a sociedade. E é esta relação ternária que determina o próprio objeto: “Esta ligação é uma parte intrínseca da ligação social e deve, pois, ser interpretada neste quadro” (Moscovici, 1986, p. 71) Com efeito, a  construção de um objeto só é possível dentro de um quadro social dado, constituido de uma herança social comum. Não há nada real que não seja construído pelos sujeitos, apoiando-se em sistemas de valores e implicados em um contexto social e ideológico. A partir da herança social, o indivíduo desempenha um papel não negligenciável em suas tomadas de decisão: ele é ao mesmo tempo produto e produtor da sociedade. Esta existe somente através de suas práticas.  Simplesmente, na perspectiva das RS. “ aquilo que se pretende de fato, e Moscovici (1961) insistia nisto desde o início, corresponde a uma categoria fundamental da sociabilidade…” (Rouquette, 1995, p. 1)

Assim, De Rosa (1992) assinala que os psicossociólogos têm abandonado a perspectiva cognitivista-construtivista para assumir uma perspectiva construtivista-interacionista. Ela observa também que segundo esta linha de pensamento, os conceitos (sociais) são transmitidos por diferentes meios de informação, re-objetivados através das múltiplas interações sociais que se encontram na base da experiência social. Um grande valor, pois é dado ao aspecto simbólico de cada cultura na apropriação dos conceitos. Nesta perspectiva, a cognição não é mais percebida como uma estrutura de tipo lógica e formal, mas como conjuntos  ao mesmo tempo racionais e irracionais, lógicos e emotivos, normativos e avaliativos.

Diferentemente de Durkheim, que considerou as representações coletivas de maneira estática e análoga às categorias puramente lógicas e invariantes do espírito nas quais estão incluídos todos os modos de conhecimento, Moscovici   os considera de uma maneira dinâmica (de natureza móvel e circulante), mais como um modo específico  de conhecer e de comunicar aquilo que se conhece. Assim, as RS ocupam uma posição particular entre o conceito que tem por objetivo abstrair o sentido do real  e a imagem que reproduz o real de maneira concreta. Esta renovação de perspectiva se justifica segundo Moscovici  pelo fato de que se as RS fossem consideradas de maneira muito geral como toda forma de conhecimento, elas perderiam o seu poder heurístico  e tornar-se-iam obstáculos ao conhecimento articulado do real..

Logo, as RS se apresentam  sempre com duas faces: a de imagem e a de significação (a cada imagem uma significação e a cada significação uma imagem). Elas constituem uma forma particular  de pensamento simbólico, ao mesmo tempo imagens concretas apreendidas diretamente e ao mesmo tempo remetidas a um conjunto de relações mais sistemáticas que dão uma signiificação mais ampla a estas imagens concretas. Neste sentido as RS são diferentes tanto dos sistemas teóricos mais elaborados como as teorias científicas e as ideologias quanto das imagens concebidas como produto da percepção.

O conceito de RS designa uma forma de conhecimento particular, “o saber do senso comum”. De acordo com Moscovici e Hewtone (1984) o significado de “comum”  tem um duplo sentido. De um lado, ele aparece como um corpus de conhecimento nascido de tradições partilhadas e alimentadas pela experiência e de outro lado, este corpus é atravessado pelas imagens mentais e por fragmentos das teorias científicas, transformadas para servir à vida quotidiana. É neste sentido que os autores falam de um  “conhecimento  científico irrompido em cultura”.

Jodelet (1989), na mesma ótica afirma que o conhecimento de sentido comum é uma maneira de interpretar, de conceituar a realidade quotidiana. Este pensamento não se constrói no vazio, ele se enraíza nas formas e nas normas da cultura  e se constrói ao longo das trocas quotidianas. Por isso se afirma que ela é socialmente construída.

Na sua definição, Jodelet (1984, p. 361) nos recorda a noção de conhecimento sócio-construído: “o conceito de RS designa uma forma de conhecimento específico, o saber do senso comum, no qual os conteúdos manifestam a operação de processos geradores e funcionais socialmente marcados, designa uma forma de pensamento social”.

A partir desses elementos nós podemos propor a seguinte definição: A RS é a construção social de um saber ordinário (de senso comum) elaborado por e dentro das  interações sociais, através dos valores, das crenças, dos estereótipos etc partilhada por um grupo social  n o que concerne a diferentes objetos (pessoas, acontecimentos, categorias, objetos do mundo etc,    dando lugar  a uma visão comum das coisas.

. Produto e processo

Segundo Abric (1987) a representação social pode ser considerada como produto e como processo “de uma atividade mental pela qual um indivíduo ou um grupo reconstitui o real com o qual ele é confrontado e lhe atribui uma significação específica”. Ela dá lugar a uma construção e a uma reconstrução da realidade aí integrando as dimensões individual e social porque ela se elabora a partir de nossos próprios códigos de interpretação, culturalmente marcados e neste sentido ela constitui um fenômeno social em si.

Enquanto produto a RS constitui um universo de opiniões, de crenças, de conhecimentos, etc. a respeito de um objeto e organizados em volta de uma significação central. Como processo, a RS é a atividade mental que subjaz à elaboração da representação-produto.

Logo, a representação, enquanto processo, é a transformação social de uma realidade em um objeto de conhecimento que também é social. Ela  se constrói  no interior de um processo relacional em que a comunicação social desempenha um papel de primeiro plano.

Trata-se de um processo de remodelagem da realidade que tem como objetivo produzir informações significativas, e neste sentido ela se elabora  no interior dos modelos culturais e ideológicos, e das maneiras de pensar  dominantes na sociedade.

Assim, ela funciona como uma elaboração reduzida da realidade aliviada de toda ambigüidade, e é por isto que se diz que esta transformação se traduz como um trabalho de naturalização da realidade social porque ela contorna os elementos sociais apresentando-os como evidentes.

Moscovici propõe um esquema explicativo da dinâmica de constituição de uma representação que inspirou as pesquisas posteriores. Três fases de constituição são identificadas: 1) a passagem do dado fenomênico ao modelo figurativo (objetivação); 2) a passagem do modelo figurativo ao sistema de interpretação e de categorização da nova informação (este sistema de categorização permite a investigação, a compreensão e organização da realidade, a analogia, a inferência, a antecipação, a compensação e  3) a mudança da categorização para um modelo ativo. Durante esta fase o sujeito completa e modula aquilo que já foi constituído, assim o modelo figurativo torna-se um modelo ativo capaz de dar sentido aos fenômenos e capaz de orientar as condutas. O modelo figurativo serve de filtro e age como mediação entre o indivíduo e seu contexto. Este modelo figurativo permite a organização de uma rede de significações que está de acordo com as normas e valores de uma sociedade dada. Este processo que consiste em incorporar um objeto novo em um quadro de referências conhecido, constitui a ancoragem.

Em resumo, segundo Moscovici, dois processos permitem uma reconstituição específica da realidade: a objetivação e a ancoragem.

. A  Objetivação

Refere-se ao processo de agenciamento de conhecimento que concernem ao objeto da representação. Seleção de informações, esquema figurativo (condensação dos elementos de informação e esvaziamento dos aspectos mais conflituosos), processo de naturalização isto é de concretização dos elementos figurativos que se transformam em elementos evidentes e simples.

Ligada à concepção das Rs como produto de uma atividade mental nós encontramos a perspectiva centrada nos conteúdos. Nesta perspectiva procura-se colocar em evidência como os grupos constroem a realidade e a integram a seu sistema de valores. Assim pode-se analisar o sentido dos conteúdos observados em uma população dada. Trata-se do estudo das normas, das atitudes, dos pressupostos do grupo a respeito de um objeto particular. Esta orientação proporcionou desdobramentos importantes depois do trabalho fundador de Moscovici (1961) e os de Jodelet (1989, Loucura e RS, em colaboração (1994) Conhecimento, representações, comportamentos, ciências sociais e prevenção da Aids), de Coudin sobre as RS do marxismo antes e após a queda do muro de Berlim, os do Cirade sobre a saúde, os nossos sobre a aprendizagem e agora sobre a identidade profissional entre outros. Estas perspectivas estão ligadas a temas específicos como a saúde, o meio ambiente, a educação etc.

. A respeito da estrutura

Além dos conteúdos particulares, toda uma corrente de pesquisa se interesse também pela estrutura das  Representações Sociais, Isto é,  pelas  suas propriedades e pelos seus processos gerais (Rouquette, 1995).

Esta corrente, dita “estrutural”, ligada ao estudo dos processos, está baseada de uma parte, em uma definição de Representações  Sociais mais restrita que a apresentada alhures – “um conjunto de elementos ligados por relações. Partindo da idéia de que os elementos de uma Representação Social não possuem todos a mesma importância, decorre uma organização particular: o “núcleo central” (Abric, 1987) ou mais recentemente o  “sistema central” (Abric, 1994, Rateau, 1995), constituído de um ou de mais elementos”.  Este sistema central  organizaria a Representação Social e lhe daria seu sentido fundamental e sua estabilidade.  Quanto aos outros elementos, eles fariam parte do sistema periférico cujo fim é o de preservar a organização interna adaptando-se às flutuações do contexto, como um pára-choque de automóvel.  Dentro deste quadro, não se poderia falar de mudança da Representação Social se o sistema central não foi  modificado. Com efeito, segundo os defensores desta perspectiva, o que é essencial é conhecer como se organiza  o conteúdo. Segundo Abric (1994, p. 22) “duas representações definidas pelo mesmo conteudo podem ser radicalmente diferentes se a organização deste conteúdo, e conseqüentemente a centralidade de certos elementos é  diferente”.

O que pretende esta tendência de pesquisa é abandonar a análise centrada sobre os conteúdos para colocar em evidência as constantes estruturais que uma vez identificadas são suscetíveis de explicar o funcionamento interno das Representações Sociais. Este interesse  pela pesquisa de constantes permitiria se ganhar em predição e em generalização. Assim, o protótipo de constantes estruturais constitui o núcleo central da representação. De acordo com esta teoria do núcleo central, a representação é constituída por um conjunto estruturado e hierarquizado de elementos cognitivos.

Nesta mesma perspectiva, outros estudos se preocupam com o funcionamento das Representações Sociais. O estudo de Abric e Tafani (1995) Natureza e funcionamento do núcleo central de uma Representação Social: a representação da empresa,  é um exemplo eloqüente.  Estes autores, a partir de um conjunto de resultados experimentais, desvelam o sistema central das representações sociais como sendo constituído de elementos de natureza e de função diferentes. De um lado, os elementos são articulados em volta de uma dimensão normativa que organiza as diferentes tomadas de posição em relação ao objeto e de outro lado, os elementos de ordem funcional organizam as práticas em relação ao objeto.

Esta perspectiva tem sido desenvolvida pelos pesquisadores da escola mediterrânea das Representações Sociais que tem como principais autores Flament, Abric da Universidade de Provença e Rouquette da Universidade de Montpellier.

. A Respeito dos processos cognitivos

Uma outra corrente de pesquisa  é aquela que se interessa pelo estudo das relações entre os processos cognitivos e as representações sociais. As representações nesta perspectiva podem desempenhar o papel de variável independente ou de variável dependente.

No primeiro caso, os trabalhos de Monteil (1993) têm mostrado que o nível de desempenho intelectual (aspecto cognitivo) esperado pelas crianças, depende de um certo número de de mecanismos ligados aos fenômenos de comparação social (aspecto sociocognitivo), mas também à representação social que a população estudada concede à inteligência.

No  segundo caso, as Representações Sociais desempenham o papel de variável dependente e os processos cognitivos o de variável independente. Por exemplo, nas situações de resolução de problemas abstratos onde a aprendizagem não é favorecida, observam-se que as representações podem ser transformadas e produzidas.

Estes resultados nos levam a apresentar a quarta orientação no estudo das Representações Sociais isto é aquela que evidencia as relações Representações Sociais e práticas ou experiências.

. A  respeito das relações entre Representações Sociais e práticas

No estado atual da pesquisa, os estudos, tanto os experimentais como os de campo têm mostrado que a mudança da Representação Social não pode acontecer se as mudanças de condições de práticas são consideradas pelos atores como irreversíveis (Flament, 1994).

Assim, pode-se verdadeiramente supor que as práticas sociais estão na origem das mudanças da Representação Social (Guimelli, 1994 a). Para Flament (1987, p. 149) elas seriam mesmo “a principal fonte, senão a única, das transformações das Representações Sociais”.

Estes trabalhos têm a ambição de estudar os processos cognitivos que poderiam explicar as relações entre práticas e Representações Sociais. Dá-se às Representações Sociais seja o estatuto de variável independente, isto é que se quer mostrar como as Representações Sociais são susceptíveis de constituir um guia para a ação; seja aquele da variável dependente. Neste caso trata-se de saber como as práticas podem afetar ou transformar as Representações Sociais.

O trabalho de Morin (1989) ilustra o primeiro caso. Com efeito, este autor mostra como as Representações Sociais podem conduzir a análises diferentes de uma mesma situação. Ele analisa o impacto do barulho sobre os comportamentos em uma empresa e constata que os sujeitos se referem a três tipos de representações seja aquelas que se organizam em volta da família, do trabalho e da imagem de si. Estas representações provocam reações diferentes diante do barulho.

No mesmo sentido, o estudo de Jodelet (1989b) sobre as representações que os membros de uma comunidade rural têm a respeito dos doentes mentais, mostra que estas representações se organizam em volta de três elementos: “cérebro”, “nervos” e “mundo de carne e osso”, fazendo referência a uma teoria ingênua do funcionamento biológico. A oposição cérebro, nervos é organizadora de práticas diferentes  face aos doentes. Aqueles considerados doentes do cérebro  vão receber um tratamento privilegiado e vão ser integrados à vida familiar enquanto que os doentes dos nervos vão ser segregados e são considerados perigosos para as crianças. Vê-se claramente que as Representações Sociais geram práticas diferentes e orientam o agir.

Quando se trata de saber como as práticas podem afetar ou transformar as Representações Sociais, estas desempenham o papel  de variável dependente. Guimelli (1990, 1994 a), é sem dúvida um dos primeiros a ter colocado em evidência, através de dois estudos de campo, uma junto a caçadores e outra junto a enfermeiras em formação, estas proposições teóricas a respeito das condições de mudança das Representações  Sociais. Ele se interessou  a  saber   como os acontecimentos considerados por um grupo como  gritantes, susceptíveis de ameaçar sua organização atual  podem provocar a  emergência  de práticas novas e estas, quando em contradição com as antigas representações podem provocar transformações  nas Representações Sociais. A análise da prática enfermeira  traz algumas respostas a estas questões. Com efeito, Guimelli (1990) mostra que as representações da função enfermeira mudam de estado quando os  sujeitos modificam sua prática.  Estas passaram de uma perspectiva médica centrada sobre a doença a uma perspectiva chamada de  procedimento de cuidados, centrado na pessoa e   colocando em ação as competências técnicas e relacionais.

Esta mudança  respeitaria o processo geral seguinte:

- as circunstâncias externas se modificam;

- progressivamente, as práticas sociais se modificam por sua vez;

- estas práticas novas mobilizam os esquemas ordenadores novos;

- os esquemas ordenadores ativados modificam as Representações Sociais.

Contudo, o estudo em contexto real, das práticas sociais se encontra ainda pouco desenvolvido e a análise do duplo sistema de determinação entre Representação Social e práticas está ainda, em grande parte, a ser feito (Abric, 1994, p. 18).

. A respeito da gênese das Representações Sociais

Quer se trate da perspectiva estruturalista ou daquela centrada sobre o conteúdo, quer se trate de observação direta, de pesquisa de campo ou de estudos experimentais, a questão da gênese das Representações Sociais se coloca inevitavelmente. A partir desta constante um novo domínio de pesquisa se desenvolve bastante como o mostra a publicação recente de um trabalho coletivo publicado pelas Éditions Nouvelles, sob a direção de Rouquette e Garnier.

A questão da gênese remete a duas problemáticas: de um lado, como se apropriar de uma Representação Social visto que ela já existe na sociedade e de outro lado como ela pode ser construída, elaborada. Estes processos de aquisição ou de construção podem ser analisados  do ponto de  vista individual ou coletivo.

Perspectivas metodológicas

Todo estudo referente às Representações Sociais  é confrontado com a escolha de um método susceptível de identificar e de apreender esta configuração complexa e dinâmica.  Assim, múltiplas metodologias de pesquisa são utilizadas, algumas saídas das perspectivas experimentais e quase experimentais e outras de tradição mais hermenêutica, qualitativa e interpretativa. Poder-se-ia adiantar que cada orientação de pesquisa tem aperfeiçoado as técnicas e os instrumentos metodológicos que permitem a identificação das Representações Sociais.

As orientações de pesquisa centradas no conteúdo privilegiam as estratégias metodológicas mais próximas daquelas utilizadas pela etnologia privilegiando a interação sujeito-pesquisador, a subjetividade de um e de outro e a consideração do contexto. Assim, a observação participante, as entrevistas livres ou semi-estruturadas, a pesquisa de campo e a análise qualitativa ocupam um lugar central.

Entretanto outros utilizam técnicas de análise quantitativa sobretudo quando se trata de dados obtidos em questionamentos estandardizados ou semi-estandardizados, então a análise e a classificação automática são utilizadas. Por exemplo, uma das técnicas é a análise de conteúdo clássica ou a associação de palavras. Neste último caso, o material obtido pode ser reagrupado em um grupo de palavras  citadas pelo conjunto dos   respondentes, ou ainda por cada indivíduo.

A análise estrutural das representações  sociais utiliza, em geral, as técnicas experimentais, muitas técnicas têm sido elaboradas a fim de identificar o núcleo central e a estrutura das Representações Sociais. Por exemplo, Flament 1994 elaborou o teste de colocação em questão que consiste em identificar pelos métodos clássicos da entrevista dos atributos de um objeto para mais tarde questionar e encontrar o elemento central para definir o objeto.

Os trabalhos marcados pelas relações Representações Sociais – práticas têm utilizado até agora questionários fechados em que os dados são submetidos à análise de similitudes.

Em todo caso, a matéria  primeira dos estudos sobre as Representações Sociais é constituído por repertórios de opiniões, atitudes, julgamentos individuais nos quais é preciso reconstituir os princípios organizadores comuns a um conjunto de indivíduos ou a um grupo particular. Esta tarefa exige diferentes tipos de análise de dados.

Nós pensamos que a análise da linguagem é o modo de investigação a ser privilegiado para estudar as Representações Sociais porque ela permite que se coloque um olhar sobre os mecanismos cognitivos presentes em sua elaboração. As Representações Sociais são uma forma de conhecimento   elaborado pelo indivíduo  mas que é partilhada socialmente, um conhecimento produzido pelo social e produtora do social. A informação que  nos provém    do exterior é construída a partir de quadros interpretativos, de prejulgamentos, de crenças etc. e a análise da linguagem permite identificar as operações que o sujeito que conhece utiliza para trabalhar os sentidos, para reconstituir a realidade e estruturar seu pensamento.

Três traços caracterizam as representações sociais, elas são apreendidas como modalidades de conhecimento, elas são consideradas como fenômenos sociais e elas se referem aos processos que afetam a organização e a comunicação social. (Jodelet, 1984). Logo, metodologicamente não se trata somente de retirar as idéias, os temas ou as categorias mas antes trata-se de identificar as modalidades coletivas segundo as quais os membros de uma coletividade relacionam os elementos  representativos, isto é, ressaltar as lógicas, as sintaxes às quais as representações sociais obedecem.

É por isto que nós afirmamos que uma perspectiva promissora é a análise da linguagem.  Depois de alguns anos nós sustentamos    com apoio em Faye (1973) e Vignaux (1988) que o estudo das Representações Sociais é possível pela análise da linguagem porque elas são trazidas pelas palavras e meios nas mensagens (Anadon, 1989; 1991;1999). No mesmo sentido Faye afirma que as Representações Sociais são “estudáveis” pela linguagem porque uma das características  das representações é de constituir   um sistema de significantes que intervêm nas interações sociais. Vignaux por sua vez nos lembra que nós não podemos ignorar a dupla particularidade das Representações Sociais: elas são significantes e    estão   estreitamente ligadas aos fenômenos da comunicação isto é em relação ao outro.

Além disto, as representações se constroem e se reconstróem na atividade discursiva do sujeito, isto justamente a partir da análise dos traços desta atividade discursiva que o pesquisador identifica  os temas, os núcleos, as noções em volta das quais os sujeitos organizam suas representações.

Tratando-se de colocar em evidência o caráter cognitivo e social das representações sociais, dois princípios estão na base de nosso procedimento de análise. Em um primeiro momento o estudo das representações sociais exige que se examine   a atividade a partir da qual se constrói o saber, isto é de tomar em conta o sujeito do conhecimento na construção do sentido. Este sujeito historicamente delimitado e intencional trabalha os sinais para estruturar e se representar a realidade. Em um segundo momento, seu estudo exige o exame das condições sociais e institucionais da produção e da circulação deste conhecimento em referência  a uma prática visto que ela se oferece como visão do mundo à qual os indivíduos se referem para agir quotidianamente.

Com efeito, a linguagem se interessa  ali onde ela oferece sentido para os sujeitos inscritos nas estratégias de comunicação, nas posições sociais ou de conjunturas históricas. A linguagem escapa pois à norma, não é o domínio homogêneo da língua, ela ´esta “colocação em funcionamento da língua por um ato individual de utilização”, ele é enunciação segundo Benveniste (1970), ele é discurso.

Os trabalhos da “escola francesa da análise do discurso” que se apóiam sobre os métodos da lingüística  consideram também outras dimensões que são a base desta reflexão, como o quadro socio-histórico  e institucional   de produção pelos quais se cristalizam   os elementos históricos e sociais  que estão em jogo.

Esta referência à comunicação, à linguagem, à enunciação, em resumo ao aspecto discursivo dos saberes elaborados em comum é um avanço certo para o estudo das representações sociais porque ela insiste sobre a ligação entre cognição e comunicação, entre as operações mentais  e as operações lingüisticas, entre informações e significações (Vignaux, 1988; Moscovici e Vignaux, 1994).

A contribuição de Vignaux reside na articulação entre atividades de linguagem e atividades de conhecimento. Segundo ele, todas as estratégias dos discursos podem ser sintetizadas  na manipulação das operações enunciativas, isto é, as operações que implicam a tomada em conta do sujeito que age na língua e sobre a língua.

Com efeito, a enunciação é o nível do discurso onde se constroem o locutor e o destinatário bem como as relações que eles estabelecem. Ela é a intervenção do sujeito no seu discurso mas não se trata do ato de um sujeito anônimo, mas antes daquele de um ator social em interação com outros atores sociais.  Vignaux (1988) nos lembra  que duas grandes perspectivas de tendência dos fenômenos lingüísticos caracterizam as tentativas de elaboração de uma teoria de enunciação.

De uma parte, aquela que se preocupa do aspecto indicativo da linguagem isto é do resgate dos sinais podem ser considerados como traços enunciativos. Quatro categorias dos sinais enunciativos permitem  a cada  interlocutor ou leitor compreender em quais condições um discurso pôde ser enunciado e a que ele remete.  Estes traços são: os interlocutores (identificáveis pelos pronomes pessoais ou possessivos que se organizam em torno do “eu/tu”); o tempo e o lugar da alocução (serão marcados pela utilização dos tempos de verbos, de advérbios, de pronomes demonstrativos, aqui, agora, ontem, amanhã, etc.); as modalidades de alocução (afirmativa, negativa, subjuntiva; certo, provável, necessário; apreciativo e pragmático).    De outra parte, outro tipo de tendência preocupada com os fenômenos  enunciativos, se interessa pela contextualização do enunciado em relação a outros enunciados que os precedem ou os seguem constituindo-se em discurso. Nesta perspectiva interessa-se pelas relações entre os interlocutores e a maneira como os enunciados são estruturados para influenciar, para persuadir o interlocutor. Dito de outra forma, as funções interativas e argumentativas são tomadas em conta na análise do discurso. Elas permitem uma dupla sinalização: quais são  os enunciadores em causa? (quem fala e a quem ele fala?) e quais são as relações que se estabelecem entre um e outro? (O que é dito e como isto é dito?)  porque a comunicação se estabelece sob uma dupla  colocação em relação, uma relação entre sujeitos e uma relação entre sinais.

Assim a argumentação pode ser estudada como um mecanismo social que regula as interações entre indivíduos e entre grupos  porque o  único fato a argumentar supõe que a adesão do outro é importante e, com efeito, o discurso colocará em ação um conjunto de estratégias de persuasão, de convicção uma vontade de representação dada pelo autor a seu auditório.

Deste ponto de vista  os trabalhos de Vignaux constituem uma contribuição certa em que eles explicitam a relação cognição/discurso. Ele afirma que todo discurso  pode ser considerado  “lugar” de elaboração de nossos procedimentos  de cognição do munmdo e dos outros. Para isto todo  discurso pode ser visto como argumentativo “no sentido  que ele vai traduzir a necessidade que tem o sujeito de “se afirmar” e de afirmar um saber, uma “impressão”, uma visão”, dito de outra  forma uma certa representação de uma situação ou de um domínio determinado”. (Vignaux, 1988, p. 216). Em todo discurso argumentativo o sujeito enunciador se inscreve ao mesmo tempo em que ele constrói uma interlocução e instaura uma ordem, um percurso, uma intencionalidade em vista de construir um julgamento ou de modificar o juízo ou a opinião do interlocutor  sobre uma situação ou sobre uma situação ou sobre um conhecimento.

Enunciação, pragmática, argumentação são os movimentos de fundo da análise do discurso pouco importam as divergências que estas problemáticas podem apresentar. O ponto de convergência é que elas recusam a concepção que considera a linguagem como um simples suporte para a transmissão de informações e a percebem como aquilo que permite construir e modificar as relações dos interlocutores entre eles e com o mundo.

O sujeito provoca três tipos de ações ao construir o discurso:

Ele diz ou escreve; ele julga-distância e ele esquematiza.

Quanto a primeira ação diz ou escreve e levando em conta as exigências específicas da linguagem, o sujeito trabalha  lingüisticamente seu pensamento para precisar aquilo que ele quer dizer , assim ele marca sua relação com o objeto, dando-lhe um valor segundo suas crenças, sua ideologia, sua maneira de ver o mundo.

No que toca à segunda ação julga-distancia o sujeito lida com as significações, efetua as colocações e os deslocamentos de construção e desconstruções afim de elaborar as significações. Ele  joga igualmente com a linguagem para construir as relações entre as palavras e entre as frases, para dar um percurso a seu discurso a partir daí um outro jogo é possível , aquele “conceitual e social que todo discurso pratica a propósito de convenções admitidas ou usuais.” (Vignaux,1988,p.218) Desta maneira um novo esquema cognitivo  e discursivo de significação é construído.

È neste sentido que o sujeito realiza a terceira ação, esquematiza, ele esquematiza procedendo a uma reestruturação, a uma reconstrução pelo discurso dos objetos do mundo sob forma de imagens, de idéias, de novas significações que tomam a forma de argumentos.

Estas ações, como terminamos de ver, destacam a ordem cognitiva (do pensar) e da ordem do falar (do dizer). Assim, o cognitivo contribui para atribuir no discurso dos espaços de sentido e dos campos de ações aos objetos afim de operar um efeito real, de verossímil daquilo que será dito  a respeito de um objeto ou de um acontecimento. A linguagem permite operar uma ação de controle e de deslocamentos de distâncias sobre dois sistemas: aquele da língua apoiada  nas regularidades e aquela do pragmático, isto é o conjunto das maneiras segundo as quais se constituem os dircursos. Logo, a análise do discurso permite destacar as operações cognitivas e lingüísticas que o sujeito utilizará para construir o discurso, para construir a representação dos objetos do mundo.


[1] M. Anadón, comunicação no colóquio GIREFAD, Acfas, 1999.

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